quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Quando o perdão não é regra, mas excepção

Em 2007, Besnik discutiu com o seu primo por motivos banais. A luta intensificou-se e Besnik matou-o. Foi preso mas a sua família (acima) espera pela vingança. As crianças já não podem ir à escola, recebem um professor (à direita) para dar aulas em casa. O código de Kanun, instituído há seis séculos na Albânia, abriga a lei Gjakmarrja (em português “vingança de sangue”), onde as disputas entre famílias são resolvidas com o “derrame de sangue”. Quando uma pessoa é assassinada, os seus familiares têm o direito - e segundo este código a responsabilidade social - de matar um membro da família do assassino. Apesar de ser um código antigo e não estar oficialmente em vigor, a sua tradição mantém-se, principalmente no norte da Albânia, como sinal da manutenção dos "valores morais" albaneses. Grande parte das mortes ocorrem após disputas sobre dinheiro ou propriedades. Apesar de a lei proteger mulheres, crianças e idosos, qualquer pessoa corre o risco de ser assassinada, violada ou raptada, caso esteja fora da sua casa, o único espaço seguro, onde a lei de Kanun não se aplica. Para estas comunidades, o perdão não é a norma, mas a excepção.
O fotógrafo italiano Stefano Schirato começou a interessar-se pelo código da “vingança de sangue” quando este lhe foi comunicado por um amigo, na altura voluntário de uma associação em Escodra, Albânia. Stefano entrou em contacto com uma rapariga albanesa que tinha desenvolvido uma tese sobre este tema. Em 2009, convidou-a para ser sua assistente para o projecto Eye for an eye, um ensaio fotográfico que retrata as famílias fechadas em casa, com o receio de serem assassinadas. “As instituições negam muitas vezes a sua existência, mas centenas de famílias na Albânia são vítimas do fenómeno da vingança do sangue”, diz Schirato, em resposta por email ao PÚBLICO. “O código de Kanun ainda é forte no norte da Albânia, monopolizando as regras da vida social e cultural da população albanesa nas montanhas”. Para a cultura albanesa, a honra é o factor mais importante na relação entre o indivíduo e a comunidade. Qualquer acto de desonra é julgado como um crime. E, segundo o Kanun, esse acto só pode ser vingado, com “sangue derramado”, ou perdoado, através de um ritual de reconciliação. Stefano conheceu famílias de ambos os lados: umas que procuram matar para obter a sua vingança e outras que receiam essa vingança. No último caso, as histórias variam pouco. Os anos fechados em casa é que mudam. Marku Pietri tem 70 anos e o seu irmão foi preso por cometer um homicídio, apesar de estar inocente. Desde 1997 que Marku não sai de casa. Nusha é uma adolescente de 17 anos e o seu pai após matar uma mulher numa discussão foi preso. Há dois anos que Nusha não vai à escola. Mas as histórias das famílias que procuram a vingança não são mais simples. Há oito anos que os dois filhos de Behije Kadri, uma mulher de 73 anos, foram mortos. Os rapazes planeavam fugir, sem casar, com duas raparigas da família vizinha. Quando o tio delas descobriu matou-os e fugiu para o estrangeiro. Behije ainda espera a sua vingança. Mas nem todas as famílias são a favor do código Kanun. O marido de Lina Hili, de 42 anos, foi morto durante um assalto em 1999. Lina ficou viúva com duas crinças. Hoje em dia, estão todos dispostos a perdoar o assassino, mas numa cidade pequena, o perdão é sinal de falta de orgulho e de respeito pelos fundamentos da sociedade albanesa. Stefano espera que as suas imagens ajudem a mudar a mentalidade das pessoas e a criar uma rede de apoio a estas famílias, fechadas em casa numa cidade ressentida e onde as ruas estão quase sempre vazias (Público)

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